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7 de agosto de 2010

VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 14

Presentes de viagem: passe longe

Gastos com lembrancinhas, além de pesar em seu bolso, nem sempre agradam ou servem à pessoa presenteada

Poucas horas depois de desembarcar pela primeira vez em Buenos Aires para passar um feriado de quatro dias, já estava literalmente socada em uma loja de fábrica de malhas de lã. Preciso fazer um parêntese: é impressionante como as cifras exercem força sobre nossa mente. Se o produto é barato, encaramos sem ao menos questionar a real necessidade e conveniência de adquiri-lo naquele momento. Nos primeiros 20 minutos, depois de levar 50 cotoveladas de outros brasileiros desesperados, um a zero para a loja. Ou melhor, cinco a zero para a loja, pois eu havia decidido comprar cinco malhas de lã masculinas, para presentear os homens da família. Levei ainda mais 20 ou 30 minutos, pois precisava escolher as cores, e nem todas as cores estavam disponíveis em todos os tamanhos, e nem todos os tamanhos eram condizentes com as pessoas que seriam presenteadas, e, ainda, havia outra pessoa que estava segurando a manga da mesma malha que eu segurava. Chamaria a isso de guerra. Escolhi para o meu pai uma malha vermelha. Vermelha, não: marrom. Pensando melhor, terracota. Ou, de repente, ferrugem. A realidade é que nunca havia visto meu pai vestindo qualquer uma dessas cores. A única notícia que tenho do meu pai usando uma blusa vermelha remonta os anos 70 e advém de um boato familiar segundo o qual meu avô materno implicava com a camisa vermelha do meu pai. Coisa de rebelde ou revolucionário, pensava ele. O fato é que as malhas, na realidade, não tinham a cara de ninguém... Ou tinham a cara de todo mundo. Impessoais... Essa é a palavra!  Elas eram presentes absolutamente impessoais. 
E agora vou direto ao ponto. Vale a pena se desdobrar para comprar presente para toda a família e para os amigos simplesmente porque criamos o dever de trazer lembrancinhas de viagem? É razoável perder horas de suas tão esperadas férias e sola de sapato à procura de presentes? Faz sentido sair comprando presentes simplesmente porque temos uma lista a cumprir? 
Antes de começar a responder, vou esclarecer algo: adoro comprar e ganhar presentinhos de viagens! É uma demonstração de carinho deliciosa, por meio da qual quem presenteia declara que se lembrou do outro em momento e lugar especiais. Sem falar no imensurável prazer que é receber algo absolutamente inédito, made in qualquer outro canto do mundo que não o Brasil.
O que quero dizer é  que a busca de presentes não pode se tornar um martírio a ponto de atrapalhar sua viagem. Algo que supostamente é legal torna-se pura preocupação. Corre-corre no fim da viagem para completar a lista de presentes é prática mais comum do que se imagina.
Depois, qual é  o problema de comprar aquela fivelinha linda que você viu e é a cara de uma de suas amigas e acabar não trazendo nada para as outras, porque não encontrou nada que tivesse a ver. Por isso, eu aconselho: se você encontrar algo que efetivamente se relaciona com a pessoa a ser presenteada, ótimo. Ela ficará feliz e você também. Mas, se não rolar, tudo bem. Curta a sua viagem, sem ficar na paranoia da lista de presentes. E, quando sua irmã, amiga ou mãe forem viajar, encha o peito e fale com sinceridade: não precisa se preocupar! Com certeza, a viagem delas será mais leve.
Ah, sobre a malha vermelha-marrom-terracota-ferrugem: no mês passado, quase seis anos depois de sua compra, topei com ela absolutamente intacta no guarda-roupa da minha avó, que, diga-se por sinal, tem metade do peso do meu pai. Minha mãe, colocando a blusa em frente ao corpo, comentou: “Lembra dessa blusa? Ela não serve em ninguém!”. Lembro, oh, se lembro.

16 de maio de 2010

VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 12



Você acaba de retornar daquelas férias maravilhosas que tanto planejou. Corada, revigorada e de bom humor entra no elevador da empresa no dia em que retornará ao trabalho. Sua energia boa extravasa, contagia os demais (que, diga-se de passagem, estão evidentemente mal-humorados). Até que alguém, de lá do fundo grita seu nome, e diz: "Fulana, quanto tempo que eu não te via!!!"
Você, mantendo o bom humor e o sorriso no rosto diz: estava em férias. Estou voltando hoje. E lá vem: “De novo em férias? Você vive em férias! Para onde você foi?” E tão logo você revele o país ou cidade que visitou, surge uma dica imperdível, seguida de uma frase mais ou menos assim: “ai, que pena que você não visitou este lugar ... se a gente tivesse se falado antes....” O elevador abre e você sai, aliviada.
No início, aquilo incomoda um pouco. Mas depois passa, você esquece. Especialmente se programou sua viagem, se curtiu a fase de escolher o que fazer, para onde ir. Até mesmo porque a sua viagem não é necessariamente a viagem do outro, e vice-versa.
O que na verdade é bem pior que isso é estar em determinado lugar que sempre sonhou, ter a oportunidade de fazer alguma coisa única e, no fim, se dar conta de que não o fez porque simplesmente vacilou. Explico.
Sonhei com a Provence desde o dia que assisti Um Bom Ano, de Riddley Scott. Programei a viagem com muitos meses de antecedência, uns sete eu acho. Guias, livros, revistas, pesquisas na internet, tudo. E a viagem foi, de fato, maravilhosa. Além de tudo aquilo que havia escolhido conhecer, o fator surpresa surge e torna a viagem ainda mais especial: a cidadezinha diferente que o dono do restaurante indicou, a feira livre que surgiu no meio do caminho, uma atração que descobri no centro de informações turísticas da cidade, uma festa típica, o prato ou o vinho desconhecido.
Ao pedir informações de como chegar ao Cânion do Rio Verdon (Gorge du Verdon), foi sugerido ter como ponto de partida a altamente recomendável e charmosa cidadezinha de Moustiers Sainte-Marie (www.moustiers.fr).
Realmente a cidade é surpreendente. Pequena, linda e bem cuidada, fica praticamente encravada nas pedras. As oliveiras por toda a parte, o barulhinho de água do rio escorrendo pelo meio da cidade, as ruas desertas  e o silêncio durante a noite criam uma atmosfera única. E algo ali parece de mentira: a enorme colina, com sua longa escadaria e, no topo, a Capela de Notre-Dame-de-Beauvoir. Dizem que de lá há uma vista encantadora do cânion.
E sabe o que eu fiz? Não subi, de pura preguiça. E foi preciso tempo para perceber a besteira que eu tinha feito ... tempo o suficiente para não dar mais para voltar atrás.
Algo parecido aconteceu também na Espanha, em Formentera (www.turismoformentera.com), a menor das Ilhas Baleares (as demais são Maiorca, Minorca e Ibiza). Eu era totalmente obstinada por este lugar, que conheci através do filme Lúcia e o Sexo, dirigido pelo cineasta espanhol Julio Médem. Embora eu ame o filme, há divergências acerca do bom gosto de seu roteiro; já escutei opiniões de todos os tipos. O que me parece inquestionável é a beleza natural do lugar e o quanto isso se faz presente na vida de seus moradores. As cenas em que os personagens adentram as cavernas, chamadas covas, e, de um buraco no solo,  caem bem próximos ao mar, revelam a intimidade entre a ilha e seus habitantes. E essas covas estão por lá, algumas perigosas e outras, nem tanto, convidando o turista a uma pequena aventura. Preciso dizer o que eu fiz ? Ou melhor, o que eu não fiz!?!
Talvez isso tenha uma explicação: tenho ao menos uma desculpa para voltar!
Para dicas de roteiros em Formentera e na Provence, acesse o meu blog (http://aviagemcerta.blogspot.com).


18 de abril de 2010

VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 11



Com lágrimas nos olhos, estaciono o carro em Torvizcón. Não conheci meu bisavô, mas estar ali, na cidade dele, a cidade em que ele nascera em 1886, era algo muito especial. Tentava imaginar como ele partira, em meio aquelas montanhas distantes, rumo à Piracicaba, por volta de 1900. Como partiram? Sabiam que nunca mais voltariam? Sabiam para onde estavam indo? E porque o Brasil? Queria que minha mãe e minha avó estivessem ali comigo. Queria que sentissem o que eu senti, por um minuto ao menos.
Ansiosa, com a cópia da certidão de nascimento de meu bisavô embaixo do braço, avisto a igreja, no topo do pueblo. Na primeira ladeira meu marido e eu já somos reconhecidos (os típicos turistas) e os locais nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão. Agradeço e resolvo pedir indicação para subir até a Iglesia. Sigo ladeira acima. Dou com o nariz na porta: a igreja estava fechada. Mas quando me dou conta, a carteira está pondo correspondências numa portinha bem ao lado. Ela me explica que o padre está em outra cidade e, simpática, se despede. No desespero, falo com uma senhora vizinha, pedindo ajuda. Ela me manda procurar a Paquita, mulher de Agostin, que costuma ajudar nas atividades da paróquia. E como acho a Paquita? A resposta é óbvia: pergunte a qualquer um, todo mundo conhece a Paquita.
Então, apresso o passo para alcançar a carteira. Ninguém melhor do que ela, a carteira Loly, para nos levar até a Paquita. Bingo. Loly confessou saber exatamente onde moram cada um dos 700 habitantes de lá. Em dois minutos estávamos frente a frente com Paquita, a simpática mulher de Agostin. Meio sem graça, ela nos diz não saber como ajudar. Então, cogito lhe deixar a cópia da certidão de meu bisavô, e mais vinte euros para postar a certidão, caso a encontre. Tudo certo! E, esperançosa, dou adeus a Loly e a Paquita. Ladeira abaixo rumo ao carro. Novamente nos oferecem pousada, restaurante, vinho e melão.
Decido comprar o famoso doce de figo que havia lido em algum guia e a sorridente Maruja nos leva até a sua Pensión Moreno. Ela mostra sua produção caseira de vinho, no porão de sua casa, vende o tal pan de higo, postais e alguns recuerdos (precisava trazer algo de lá para a família). Oferece bolo de maçã, que, por sorte, não recusei. Seria estúpida se recusasse. Era divino. Ela tentou me ensinar, mas em espanhol, difícil. Ë melhor mesmo, porque nunca seria igual, não igual ao dela, não igual ao que comi em Torvizcón.
Então, com um sorriso ainda maior nos lábios, ela me diz: "Vou lhe dar um pouco de erva buena .Quer um pouco de erva buena, não quer!?! Meu Deus, penso eu! Erva Buena?!?! Com receio, digo que sim. Ela some. Silêncio no ar. Ela resurge, com um saquinho plástico na mão. Ela me entrega e diz que é para colocar em cozidos, carnes e para ensopados. Ufa!!! Ela abre o saquinho, bem no meu nariz: menta, a mais pura menta! Mas não a que conhecemos aqui no Brasil, não a nossa hortelã. É erva buena! O saquinho está em casa. Talvez eu crie coragem de usar. E a Igreja, a Loly, a Paquita, o vinho, o melão e o pueblo de 700 habitantes estão na minha memória, para sempre! Assim espero.
Torvizcon fica num dos vales das Alpujarras de Granada, região que até a metade do século XX era isolada do resto da Espanha por montanhas de até 3 mil metros. Lá também ficam Bubion, Pampaneira e Trevelez, cidades praticamente dependuradas nas encostas das montanhas. Por aí, você já pode imaginar as estradas para chegar. Em um passeio de um dia é possível conhecer a região.

COMO CHEGAR À ANDALUZIA
  • Há vôos diretos de São Paulo a Madrid. De lá, pegue outro vôo para Granada ou Sevilha.
  • Separe de oito a dez dias e alugue um bom carro (air bag, freios potentes e com boa estabilidade), pois as curvas são de dar frio na barriga. Embora locadoras conhecidas mundialmente sejam mais caras, elas oferecem maior segurança ao consumidor.
  • Visite Granada, Sevilha, Ronda e região, Tarifa e o Parque Nacional do Cabo da Gata. Esses últimos dois destinos são praias. Conheças as cidadezinhas!
  • Para tapear (comer tapas) em Granada, sugiro fugir dos pontos turísticos e ir direto para a Plaza de la Pescaderia, nos bares Cunini e Oliver. Peça chope, e as tapas (maravilhosas!) são por conta da casa.
  • Fique atento, pois no verão o calor é de doer. E permita-se fazer a siesta, pois ninguém é de ferro!
  • Com 150 euros por dia é possível pagar hospedagem e alimentação para o casal. Para a diária do carro, reserve não menos que 70 euros.
  • Sugestão de roteiro completo: http://aviagemcerta.blogspot.com/search/label/Andaluzia 


    14 de março de 2010

    VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 10



    Quando o assunto é viagem é possível encontrar orientações sobre como escolher o destino, quantos dias viajar, onde se hospedar, qual meio de transporte usar, como organizar o orçamento, como planejar o roteiro, o que levar na mala. Mas há um aspecto tão ou mais importante que tudo isso no qual não se fala, ao menos não tão abertamente: com quem viajar e com quem não viajar. Resolvi falar sobre isso porque perdi a conta das experiências catastróficas que já ouvi. E posso garantir, ninguém volta para casa feliz, fica uma manchinha negra na história daquela viagem.

    Não tenho a pretensão de listar uma dúzia de características pessoais que, se preenchidas, afastarão em definitivo a sua melhor amiga de seus planos para as próximas férias. Afinal, ninguém melhor do que você para saber se alguém pode ou não te acompanhar naquela viagem tão sonhada. Mas responder as indagações baixo pode evitar que seu sonho se transforme em pesadelo e sua amiga, em inimiga. E lembre-se de ser verdadeira: não construa sua própria armadilha.
    1. Há identidade orçamentária? As viajantes não tem que dispor de valores idênticos, mas precisam ao menos pretender o mesmo padrão de viagem. Ficar em albergue e andar de trem pode ser incompatível financeiramente com hospedar-se em hotel de charme e alugar carro.
    2. Comer é importante? Se você não abre mão de café-da-manhã, almoço e jantar e sua amiga prefere pular o almoço e fazer uma única refeição além do café, isso pode se tornar um problema. A parada para o almoço, essencial para um, para o outro pode estragar o delicioso dia no parque ou no museu da outra.
    3. Comer bem e conhecer a culinária local está entre os objetivos da viagem? Tem gente que passa a Mac Donald's todos os dias. Outros, precisam de um bom restaurante, não só para matar a fome, mas para saciar a curiosidade, o desejo e a gula.
    4. Acordar cedo, acordar tarde ou sequer ter horário para acordar? Em minha primeira viagem à Europa na companhia de uma grande amiga, colocávamos despertador todos os dias pela manhã, bem cedo, e fizemos isso durante 7 semanas. Daí surgiu o slogan da viagem: “Temos que correr”! Hoje é totalmente impossível me imaginar num esquemas desses. Mas quem curte isso certamente não se permite fazer o oposto e isso pode causar um grande impacto no decorrer da viagem. Já agüentou o mal-humor de alguém que não suporta acordar cedo?
    5. Qual o tipo de turismo pretendido? Se você faz questão do corre-corre para ticar todos os pontos turísticos listados como obrigatórios pelos guias, dificilmente se adaptará às andanças de sua amiga que quer descobrir e explorar a vida local em pequenos bairros da periferia. E vice-versa.
    6. Turismo religioso é interessante? Se você odeia igrejas e sua amiga ama, é pouco provável que ela consiga, por exemplo, convence-la a passar o dia na cidade de Fátima, em Portugal, destino tipicamente católico.
    7. Como você anda? A pé, de transporte público ou táxi? Conheço gente que não pega um metrô, ainda que seja para andar quatro quilômetros, porque quer respirar cada minuto da cidade. Mas também conheço gente que é doidinho por um táxi, mesmo que seja para andar 400 metros no trânsito caótico de Roma ou Paris. E há quem anda o quanto agüenta, pega o metrô para chegar à determinado lugar mais distante e, até se permite a, no fim da viagem, rachar o táxi.
    8. Comprinhas são amadas, admitidas, toleradas ou vetadas? Há quem não ligue a mínima para compras, e leva para casa, no máximo, o pôster do quadro que mais curtiu no museu. Há outros que querem comprar tudo: roupa, sapato, comida, decoração, cama, mesa e banho! Se as amigas estão entre as que admitem e toleram, ótimo. Mas os opostos aqui certamente não se atraem!    Se concluir que as diferenças entre vocês são poucas e há tolerância de ambos os lados, maravilha. Senão, preserve a amiga e preservará também as férias de cada uma! Boa viagem.

    19 de fevereiro de 2010

    VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 09



    Minha avó amassava o pão e meu avô batia a manteiga. Posso fechar os olhos e ver o movimento frenético das mãos dele, numa tarde de inverno, durante as férias em Águas de Lindóia. Imagine que são necessários de 10 a 15 minutos na batedeira para transformar 1 litro de creme de leite fresco em manteiga. E algumas horas depois, pão quentinho, com manteiga derretendo e café. Café para todo mundo, até para o neto mais novo que sequer tinha dois anos de vida.
    Em dia de almoço de família, a mesinha da cozinha se abria e dobrava de tamanho e, em alguns minutos, a toalha estampada azul escuro estava coberta de fios gigantes de macarrão, recém-saídos da máquina. Era uma loucura porque todo mundo queria brincar um pouco com a tal máquina. Nós, as crianças, ficávamos com a parte de passar a primeira massa, que tira um pouco da sujeira das engrenagens.
    Na mesma mesa também se cortavam os nhoques e, ali, eles descansavam. Minha avó cobria com pano de prato, para proteger de moscas e filhos, genros, noras e netos famintos e desesperados que comem nhoque cru! Ela dizia que daria dor de barriga. Dava nada! Era praticamente só batata, pouca farinha. O nhoque dela flutua de tão leve. É desses que não se encontra em lugar algum. É preciso coragem praa ir a um restaurante e pedir nhoque. Se bobear, depois de comer  você não levanta da cadeira, seu peso duplica. A propósito, não posso ser injusta. Há dois lugares em São Paulo em que o nhoque vale à pena: Café Toscano, em Moema, e Buttina, em Pinheiros.
    Há pouco tempo, não sei se por obra do meu inconsciente ou da minha consciência, me vi programando uma viagem que trouxe tudo isso à tona, as lembranças desses sabores, aromas e afetos. Um certo dia em que, para variar, eu pensava o que seriam das minhas próximas férias, já que estaria sozinha, praticamente caiu do céu a reportagem sobre cursos de culinária de uma semana na Europa. E se era para fazer isso, pensei, tenho que fazer direito: o país é a Itália e o local, uma pitoresca cidade da Toscana, próxima a Florença.
    Decidida, prometi comer de tudo. Antes, uma estadia preparatória em Florença: brusqueta no café-da-manhã (que delícia), entrada, primo piato, secondo piato, sobremesa no almoço e no jantar, e sorvete três vezes ao dia (fingia que eram florais, os efeitos são semelhantes!). Chegando lá, eu limpava o prato, ou melhor, todos os pratos. Um dos chefs não acreditava: exibia meu prato completamente limpo aos demais. E, me chamando de lado: “Claudia, você tem que experimentar tudo, mas não precisa comer tudo, ok?” Eu ri! Os ensinamentos católicos da infância foram mais fortes do que eu: deixar comida no prato é pecado!
    Imagine. Você acorda às nove da manhã para aprender fazer o molho de tomate à moda toscana, e preparar dois tipos de nhoque. Depois de 4 horas de trabalho árduo na cozinha, lava as mãos e, enfim, coloca o avental de lado. Senta-se a mesa, olha para frente e vê tudo aquilo ali, ao seu alcance. O que você faria? Eu optei por mergulhar de cabeça no nhoque, meu prato predileto, com gosto de infância, com gosto de casa da vovó. Sim, comi quatro pratos! Neste dia, eu não fui a única. Se bobear, tinha aluno lambendo a travessa.
    Teve também a farra do ravióli colorido. Mas o auge do curso ainda estava por vir. No penúltimo dia, uma programação diferente. Ao invés de fazermos o almoço, cozinharíamos para o jantar. E adivinha o cardápio? Pizza no forno a lenha.  E também faríamos cantutti, aqueles biscoitos de amêndoa durinhos, que acompanham o café em alguns restaurantes italianos (os italianos tomam com vinho de sobremesa).
    Todo mundo pôs literalmente a mão na massa: misturou, amassou e esticou.
    Enquanto isso, alguns golinhos de cerveja, para cá e para lá. A pizza: maravilhosa, a melhor que já comi! O cantutti: divino e fácil de fazer! As férias: inesquecíveis!
    E na mala, algumas dicas preciosas da Toscana:
    1. Para fazer o molho de tomate, não é preciso tirar a pele e a semente. Além disso, outros vegetais darão um sabor especial como, por exemplo, cenoura e erva-doce. (A receita completa está no meu blog: http://aviagemcerta.blogspot.com)
    2. “Pizza se come com cerveja” foi a frase mais dita pela chef Sandra Lotti.
    3. Creme de leite bom é creme de leite gordo, com 80 % de gordura!
    4. Azeite de oliva extra-virgem e um bom queijo parmesão dão vida a qualquer receita italiana!
     E mangia che te fa bene!

    31 de dezembro de 2009

    VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 08

    Na primeira vez que fui para a Europa, não tinha um tostão para gastar em bobagens: curso de inglês de dois meses e mochilão nas costas por mais trinta e cinco dias me permitiram trazer na mala apenas uma blusa de lã do nepal, uma coletânea de quatro cds do The Clash e um anel de prata. Consciente dos meus limites, sem dúvida. Mas eu já tremia diante de uma vitrine. Sempre tremi, minha mãe é testemunha! A “rainha da tranqueira” sempre pronta a gastar até o último centavo.
    Rumo à Europa pela segunda vez, achei que eu merecia me divertir um pouquinho. Então, com quase um ano de antecedência, comecei a comprar alguns euros periodicamente. Fiz a estimativa de custos de hospedagem, alimentação, locomoção e passeios turísticos. Determinei também o valor que eu gastaria em amenidades, futilidades, desejos e o que mais viesse pela frente. Cartão de crédito seria, definitivamente, carta fora do baralho, exceto em caso de emergência. Comprei cinco bolsas, uma dúzia de lenços, bijuterias, chás variados, tênis, blusinhas e outras coisinhas mais que não me lembro agora. Mas respeitei o meu limite! Após três semanas viajando (Praga, Cracóvia, Budapeste, Berlim, Amsterdam e Paris), voltei pra casa feliz da vida com minhas novidades na mala e, o que é melhor de tudo, sem fatura surpresa de cartão de crédito para vencer. E, acredite, voltei com dinheiro para o Brasil!
    Mas, de lá pra cá, em quatro anos, em algum momento, em alguma curva, eu me perdi.
    A minha listinha básica de compras continua existindo: sabonetes, óleo desembaraçante para o cabelo, shampoos, chás, lenços, bolsas, necessaires etc.
    Só que o limite ... ah, eu não mereço ter limites, não é mesmo? Afinal, eu trabalho tanto para quê? E também, quando eu vou voltar a este lugar? Quando terei a oportunidade de comprar isso?
    São essas e outras frases que acabam proporcionando momentos únicos como, por exemplo, roer as unhas até o talo depois de comprar até escorredor de macarrão e lençol na Ikea de Praga.
    Por isso, minha primeira (e mais importante) dica é: não importa o quanto você ganha, se é muito ou pouco, o que conta é o planejamento financeiro da viagem, dentro dos seus limites, é lógico. E quanto antes começa a se programar, mais chances de êxito você terá.
    E aí vai a minha segunda dica: sabe aquele ímpeto de pensar no próximo destino enquanto ainda está curtindo o sol nas férias atuais? Não deixe que ele esfrie e, tão logo volte para casa e à sua rotina, comece a rascunhar sua planilha.
    Terceira sugestão: pesquise preço de passagens e dê preferência às companhias com programa de milhagens. Para não fazer bobagens, leia sempre o regulamento do programa de milhagens. E guarde os extratos mensais impressos pois, caso você seja vítima de um racker e suas milhas simplesmente desapareçam você terá provas para pleitear a devolução pela companhia aérea.
    Quarta sugestão: é aconselhável estabelecer uma verba diária para hospedagem. Pelo padrão de hotel que deseja ficar, dá para fazer uma boa estimativa através de sites de reservas. Se você vai viajar em várias pessoas, alugar apartamento é uma saída considerável.
    Quinta sugestão: estabelecer verba diária para alimentação e passeios. Se você curte museus, teatros, óperas, musicais precisa saber ao menos as principais atrações que deseja visitar, pois isso consome boa parte da grana na viagem.
    Sexta sugestão: lembre-se que carro encarece a viagem! Mas se quer alugar carro, que tal investir nisto e economizar em outra coisa?
    Sétima sugestão: separe uma verba específica para desejos pessoais e amenidades. Se você é das minhas e pretender comprar desde lenços até edredons, passando por velas, casacos, pijamas, chocolates e torradeira (como é linda minha torradeira estampada que trouxe de Paris!), tem que ter uma verba pré-estabelecida para isso.
    Oitava sugestão: estabelece penalidades para não estourar os gastos. Suponha que sua verba diária seja de 100 euros. Se num dia gastar apenas 80, os 20 restantes podem ir para um fundo com destinação específica. E se gastar 120 euros num dia, no dia seguinte sua verba cai para 80!
    Nona sugestão: anote tudo. Isso será útil nesta e em outras viagens. E lembre-se: anotar todos os gastos não é coisa de pobre, mas de gente inteligente!
    Décima e sugestão: deixe o cartão de crédito no cofre do hotel. Se você seguir todas as outras dicas, isso acontecerá naturalmente, porque você não precisará dele!

    27 de setembro de 2009

    VIAGENS DE CLAUDIA - Revista Elas e Lucros n. 07

    Agora, além do blog, algumas das minhas dicas vão estar na coluna VIAGENS DE CLAUDIA, na revista ELAS e LUCROS. Confira  primeira coluna!



    Ela gosta de comer. Eu também. Ela gosta de beber. Eu também. Ela gosta de viajar. Eu também. Ela, com seus cinquenta e poucos anos, casada e sem filhos e eu, com meus trinta e poucos, casada e sem filhos: vinte anos de diferença que fazem dela uma professora, uma mestra que escolhi seguir. Quando crescer, quero ser igual a ela!
    Coincidência, destino ou sei lá o quê. Cada um chame como quiser. Para mim, o que menos importa é o nome. Há uma verdade incontestável: algumas pessoas têm um papel, uma tarefa a cumprir na vida de outras. A Soninha apareceu na minha vida e ajudou a despertar algo em mim.
    Há seis anos quando a conheci, minha visão de mundo, minha filosofia certamente eram outras, bem distintas do que eu tenho hoje como ideal de vida.
    Com ela eu aprendi que a vida pode sim ser encarada como a busca do prazer, sem culpa.
    Dentro de um espaço bem restrito (nossas singelas baias de advogadas não têm mais de cinco metros quadrados!), nossos sonhos e nossas trocas de confidências não têm limites.
    Num dia, eu lhe dou a receita do gaspacho que, cuidadosamente preparado pelo marido dedicado, ela tomará por cinco dias depois de operar a boca.
    No outro, ela me explica como chegar as Termas de Puyuhuapi no Chile: de Santiago, três horas de vôo e mais sete de van, com direito a tomar uísque com gelos das geleiras da Patagônia. (e eu fui!)
    Depois, ela me conta do calor insuportável que passou no Egito, coisa que eu, provavelmente, não aguentaria!
    Daí eu a levo para comer a melhor esfiha de São Paulo (no restaurante Tenda do Nilo).
    Ela me conta de sua viagem à França, fala do Monte Saint Michel e da cidade em que Joana d’Arc morreu queimada e, depois, me contrata para fazer um scrapbook da viagem.
    Eu, enlouquecida, encontro na internet a sentença de execução de Joana d’Arc (coisa de advogado), estudo a vida de Monet e termino o álbum com a maior satisfação, apaixonada pela França.
    Ela me indica filmes para que eu leve a uma pousada, para passar o feriado do Carnaval. Quando volto, tudo o que quero é que ela conheça a pousada (Quinta dos Pinhais, em Santo Antonio do Pinhal). Ela me fala de seu receio de ir ao Leste Europeu. Eu tento convencê-la a ir, falando sobre o Parlamento de Berlim e relatando as delícias que comi em Praga (goulash, cerejas secas, comida típica afegã, etc).
    Ela me conta de sua primeira viagem à Europa, em 1988, e me mostra fotos. Eu lhe falo do meu ¨plano¨ de ir no mínimo dez vezes a Paris antes de morrer, comer magret de canard (peito de pato) e ver a torre Eiffel.
    Ela me fala do barreado do restaurante Tordesilhas. Eu lhe provoco ao descrever o sorvete de paçoca do Fred Frank, que ela ainda não provou.
    Logo, logo, ela vai se aposentar... Eu vou sentir demais!!!
    Mas há algo dela em mim que não vai mais mudar: hoje, vejo a vida de outro jeito e o que eu quero é ter prazer em comer, beber e viajar, simples assim!
    E, para seguir em frente, tive que me organizar. Hoje, meu orçamento pessoal prevê necessariamente gastos com restaurantes e, claro, uma boa parcela para atingir meu grande sonho: conhecer o mundo!
    A partir desta edição vou contar um pouco da minha paixão por viagens e como consegui chegar a lugares que, no passado, eram apenas sonhos. Sonhos que consegui realizar inspirada no exemplo e no pique da minha amiga.